Antes de tomar o primeiro gole do seu suco de laranja, o comandante da nossa embarcação despejou três goles pela janela. Nossa guia, Maritzia, antes de tomar seu primeiro gole de sua coca cola também fez o mesmo. Curiosa, quis saber o motivo. Maritzia me explicou que é uma oferenda ao Titicaca. Que o lago sente vontade assim como nós e que devemos sempre ofertar a ele como retribuição à fartura que ele nos oferece.
Nosso passeio pelo Titicaca durou o dia todo. Zarpamos bem cedo, por volta das 7h30, quando uma névoa pairava sobre o azul escuro das águas do lago. Pulamos de barco em barco até encontrarmos o nosso. Sentei-me ao lado do capitão e fiquei morrendo de medo quando vi o quão longe dos salva vidas eu estava. Normal. A Sarinha bem sabe que eu sou neurótica com barcos.
Para minha sorte o lago estava calmo e o passeio todo foi muito tranquilo. Nossa primeira parada foi nas
Ilhas Flutuantes de Uros. Eu já tinha lido bastante a respeito e, como já é conhecido, interesso-me muito por esse tipo de vida ilhéu. :) Mas, nada do que eu havia estudado, visto em fotos coisa assim, pode expressar com verdade como esses pré-incas vivem e mantém suas tradições até hoje.
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| Maquete das ilhas flutuantes de Uros |
As ilhas sao feitas de totora, um material flutuante muito resistente. Cada ilha tem um tempo de vida útil de até 30 anos, e então, eles devem começar a construir outra. Na ilha em que paramos, eles fizeram uma maquete de como sao construídas e o que há em cada ilha. Veja na foto aqui ao lado. Todas são semelhantes: há cozinha, uma torre para observação, as casinhas e uma área comum para eles.
Assim que terminaram de nos explicar como viviam, os uros nos ofereceram pao quentinho e, então, pude conhecer Suma. Ela me mostrou sua casa, falou-me sobre seu cotidiano e também sobre suas roupas.
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| Eu e minha amiga Suma |
É claro que eu pedi para me vestir como ela e o resultado é esse aqui do lado. Ela me explicou que essas cordinhas com pom-poms se chamam Bom-Bom e as moças de Uros as balançam quando estao procurando um marido!
A simplicidade, a organização e as cores destoam no azul do lago e no bege das casas, formando um visual que só traz reflexão. Como forma de incrementar sua renda, os uros constroem barcos lindíssimos para levar os turistas de uma ilha a outra e cobram 10 soles por isso.
Fui a última a entrar na embarcação e nao havia mais bancos para mim. Melhor, pude ir com o Brian, ilhéu mais novo de Uros. Ele tem 2 anos e meio, anda descalço sobre as totoras congeladas com alguns postais na mão que tenta vender aos turistas. Ele é órfão de mãe, que morreu ao dar vida a ele. Simpático, meigo e confiante, ele foi o caminho todo do meu lado fazendo caras e bocas para as fotos que eu tirava dele. Seu pai, um dos homens que remavam o barco, me contava como Brian é talentoso e já aprendeu a desenhar na escola.
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| Brian, o morador mais novo da ilha que conhecemos |
O tio de Brian, o outro remador, me contou que antigamente, quando um turista tirava uma foto, os uros cobravam por isso. Mas, que ele não permite que isso aconteça em sua ilha mais: "De agora em diante, queremos ganhar dinheiro em troca de trabalho e não de favores. Por isso, Brian ja vende seus desenhos".
Ao sairmos de Uros, todas as mulheres se reuniram na beira da ilha e cantaram "Brilha, brilha, estrelinha", em quechua, aimara, espanhol e inglês. Depois, a famosa "vamos a la playa". Tudo muito mágico. Um banho de cultura e tradiçao. O Peru me faz uma pessoa melhor e também me faz muito feliz! :)