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Mostrando postagens com marcador Machu Picchu. Mostrar todas as postagens
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Na Natureza Selvagem



Não conhecia a história de Chris McCandless até o último dia 20, quando ganhei o livro Na Natureza Selvagem (Into the Wild), escrito pelo jornalista Jon Krakauer.  O que, a princípio, pareceu apenas uma excelente reportagem transformada em livro, foi se mostrando um relato delicado de um jornalista que se identificou com seu personagem. E que se compara a ele em diversos momento – alguns explícitos, outros não. Metalinguisticamente, o livro fez com que eu, no papel de leitora, também me comparasse ao bravo McCandless e, porque não, ao autor Krakauer. Na real, o livro me perturbou.  Fiquei nervosa. Fez com que eu voltasse a uma época, não muito longínqua, na qual eu realmente desejei estar “na natureza selvagem”. Então, comecei a me perguntar o porquê de eu não ter me permitido ir um pouco mais ao extremo, como o jovem McCanndless.

Chris McCandless, ou Alexandre Supertramp como ele mesmo se identificou, foi um jovem americano que, por seus motivos, não se encaixava no mundo à sua volta. Abdicou do seu conforto financeiro e de sua família para partir rumo a uma busca pelo verdadeiro sentido da vida. Viajou por 2 anos pelos EUA, boa parte de carona, até chegar ao Alasca onde faleceu após permanecer mais de 100 dias sozinho vivendo de sua própria caça. Chris (ou Alex) queria estar perto da natureza e sentir a vida em seu pulso mais forte. O que ele buscava e quais seus motivos é impossível dizer. Mas, pelas pistas que deixou em seu diário e por suas leituras, dá para entender um pouco do que se passava em sua mente.

Assim como Alex, eu também já pensei várias vezes no modo de vida descrito por Tólstoi para alcançar o máximo da emoção – a tal superabundância de energia. Será que todo jovem tem isso? Não sei. Conheço pessoas que aceitam o mundo em que vivem e são felizes, assim como conheço as que odeiam as condições econômicas e sociais ao nosso redor e que realmente sofrem por si e pelo próximo. Há aqueles que lutam contra isso, aqueles que reclamam, os que escrevem sobre, os que apenas comentam. Mas, além da questão do estar conformado ou não, o que sempre senti foi realmente essa superabundância de energia e a necessidade de extrapolar isso a cada minuto. E não sei dizer a que isso se destina: às vezes são causas sociais, mas, na maior parte, é uma coisa egoísta mesmo. Apenas sinto, sempre, dentro de mim. E entendo como é difícil se sentir suprimido e não saber como dar vazão a isso tudo.

Pois aqui vem a segunda coincidência: apenas uma vez me senti vazia por estar completa. E esse vazio me fez sentir o nirvana da emoção. Foi preciso estar só, em condições físicas extremas, num local de difícil acesso para que eu me sentisse completa. A conquista de um objetivo me trouxe – depois de muitos meses - a perspectiva e a segurança de que está tudo bem comigo, de que eu posso viver com essa energia todo aqui dentro. Mas isso foi depois de muuuito tempo. Ali, na hora da epifania, nada fazia sentido, tudo foi colocado em choque. Fico pensando se Alex conseguiu se reconciliar com Chris nos seus 100 dias no Alasca. Tive inveja da sua coragem, algo que creio não ter em mim. Não faria o que ele fez, estou segura disso. Mas gostaria de ter feito.
Alex rabiscou várias coisas em seus livros e sublinhou trechos marcantes, sendo um deles o que diz que as experiências da vida só têm sentido se há com quem compartilhá-las. Pois aqui jaz minha diferença com ele: eu sempre tive pessoas com as quais me importo e não desejo me afastar. Nunca pensei em deixar minha família e, além deles, sempre tive um amor em minha vida, alguém com quem sempre pensei em dividir meus anos futuros.

O que fica disso tudo? Fica a confusão, volta essa fagulha, essa energia que quer transbordar. Histórias assim não me deixam deixar adormecer isso. Já tentei, muitas vezes me conter pois pensei que havia algo de errado comigo. Hoje, penso que talvez eu não deva conter isso, pois é o que me define. Talvez seja o caso de direcionar para o que me interessa. Mas não me pergunte que direção é essa, pois isso eu ainda não descobri.

Ah...esse texto está nesse blog pois, é óbvio, que foi no alto da montanha Machu Picchu que eu senti tudo isso. Não caminhei sozinha pela trilha, pelo contrário, foi muito bem acompanhada. Mas subi sozinha nessa montanha e me bastaram algumas horas sozinha – depois de alguns dias em grupo - para deixar tudo isso fluir.

O livro inspirou muitas pessoas, entre elas Sean Penn, que levou ao cinema essa história. Segue o trailler (ainda não vi o filme):



Eddie Vedder é o responsável pela trilha sonora incrível, eis aqui um gostinho:


domingo, 17 de junho de 2012

Inti Raymi, a Festa do Sol em Cusco

Grande Inca em Sacsayhuaman

Era no tempo dos grandes incas. Ao fim da noite mais longa do ano, o alívio de iniciar uma nova jornada, dia de agradecer aos deuses e pedir sua proteção para o novo período.  Uma grande cerimônia está para começar e os peregrinos dos quatro cantos do império já estão no umbigo do mundo: Cusco. O culto ao deus sol é celebrado por toda sociedade andina que se organiza de acordo com sua região de origem. Cada um tem seu papel e conhece suas obrigações. A importância religiosa, social e política do IntiRaymi, a Festa do Sol, era tal, que a celebração se tornou conhecida em todo império inca.

De acordo com o cronista e historiador cusqueño Garcilaso de La Vega, o Inti Raymi era uma das celebrações mais importantes dos incas e marcava o início de um novo ano. Em seus registros consta que a festa foi realizada com a presença do grande Inca pela última vez em 1535. Aí, a história já é conhecida: dominação espanhola, imposição da fé católica e abolição de rituais considerados pagãos pelos novos moradores dos Andes.

Depois de suprimido pela Igreja Católica, o Inti Raymi deixou de ser celebrado até 1944, quando um grupo de intelectuais e artistas cusqueños decidiram recuperar essa herança andina. Desde então, o IntiRaymi passou a ser apresentado anualmente, em 24 de junho, na cidade de Cusco.

O Inti Raymi, que no tempo dos incas era uma cerimônia religiosa, agora é uma apresentação teatral que evoca as recordação dos antigos povos andinos e contribui para a conscientização histórica dos habitante de Cusco, que dividem sua festa com seus conterrâneos de diversas partes do Peru.

A celebração ao deus inti também tem atraído muitos turistas estrangeiros, que já percebem que a cidade habitada mais famosa do Peru merece tanta atenção, quanto a que é dedicada à sua famosa vizinha, Machu Picchu. 

A festa que louva o deus sol é parada obrigatória para os que desejam conhecer um pouco mais da cultura desse povo andino, que transformou um costume inca em tradição popular que louva a história de seus ancestrais.

Participei dessa grande celebração no ano passado e, sim é uma festa turística. Mas vale estar no meio do povo que se espreme para ver passar o grande inca e seu séquito dedicado. Os cusqueños sabem celebrar suas tradições e cabe a nós, turistas, buscar um espaço em meio a isso.















domingo, 3 de julho de 2011

Retorno a Cusco

Mulher observa comboio com as peças de Machu Picchu, que retornam a Cusco após 100 anos

Chegar a Cusco, pela segunda vez, fez-me sentir parte dessa cidade. Foi como se eu estivesse voltando para um lugar do qual eu jamais deveria ter saído. Penso que esse era o mesmo mesmo sentimento dos cusqueños que aguardavam ansiosos o desembarque de 17 caixotes no pequeno aeroporto Alejandro Velasco Astete, naquela manhã de quarta-feira, 22 de junho de 2011.

Após quase 100 anos em terras estrangeiras, 363 das 46.332 peças que foram levadas pelo primeiro explorador de Machu Picchu com uma máquina fotográfica em mãos (isso é importante), Hiram Bingham, retornavam a seu país de origem. Isso graças a um acordo entre o governo peruano e a universidade de Yale, que concordou em ceder o primeiro lote para comemorar o centenário da chegada de Bingham à imponente cidade inca.

Bingham levou as peças a Yale após suas expedições, de 1912 e 1915, na qualidade de empréstimo, mas elas nunca foram devolvidas ao Peru, até agora. Se cumprido, o acordo prevê o retorno das demais peças, restos e fragmentos procedentes de Machu Picchu, de maneira progressiva até o final de 2012.

Nesse clima de festa, fui recebida por essa cidade que, orgulhosa, recebia seu legado histórico de volta. Segui, num pequeno táxi, o comboio que carregava as primeiras peças. Boba eu de pensar que seriam levadas direto para algum museu e trancafiadas a sete chaves. 

Como em Cusco tudo se comemora, a caravana seguiu até o grande templo de Qoricancha, onde o Inca (imperador), interpretado por um ator cusqueño, e seu séquito receberam as peças e seguiram em marcha até a Plaza de Armas, que estava repleta de pessoas aguardando ansiosas pela cerimônia de entrega das peças.
Inca é escoltado po policial até a Plaza de Armas


Séquito inca e autoridades locais recebem as peças

Discursando em espanhol e em quéchua, idioma tradicional dos habitantes dessa região do Peru, Luis Florez, o alcade (prefeito) agradeceu o esforço dos envolvidos nas negociações e, junto com o séquito inca, recebeu as 17 caixas com as peças, que seguiram em caminhão desde a Plaza de Armas até a Casa Concha, onde serão exibidas em breve.
Séquito inca segue em marcha até a Casa Concha




Entrega das caixas com artefatos de Machu Picchu na Casa Concha

Não pude ver as peças, apenas as caixas sendo descarregadas. O que eu vi, e acredito ser de mais valor, foi a expressão de orgulho dos cusqueños que receberam essas relíquias como se fossem fotos antigas de família, como algo muito próximo, muito seu. Essa proximidade com a tradição, com a história, é algo que salta aos olhos negros desse povo tão alegre. 

Assista o vídeo institucional da universidade de Yale e saiba mais sobre o acordo e o retorno das peças:

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A velha montanha, Machu Picchu

Bandeira de Cusco no alto da montanha MachuPicchu
Enquanto todos os turistas iam em direcao a Winapichu ou a Intipunku, a Porta do Sol, por onde eu havia chegado no dia anterior, la fui eu procurar as placas que indicavam o caminho para a velha montanha, Machu Picchu. No mapa que recebemos, esse trajeto esta classificado como alternativo.

Nao é para menos, sao 1h30 de caminhada, para quem tem fôlego, numa subida muito ingrime ate o topo da montanha. Esse caminho, de pedras desniveldas, tambem e original dos incas, que fizeram diversos caminos ate o santuario de Machu Picchu. Eu agora estava percorrendo o segundo deles.

A subida é exaustiva. Era necessario parar algumas vezes para recuperar o fôlego. Normalmente, eu faria algumas pausas de uns 5 minutos, como fiz tantas vezes durante a trilha inca. Mas, nessa escalada isso nao era possível. Eu queria ver o sol banhando, pouco a pouco, a montanha nova, Winapichu, que estava a minha frente. E uma visao espetacular e a cada vez que eu olhava para tras, El sol me apressava e Pacha Mama me dava forcas para subir mais rapido. Loucura, eu sei. Nao deveria ter subido tao rapido e sozinha. O risco de ter falta de ar e grande e eu ja havia sido alertada sobre isso nos meus quatro dias de trilha.

Felizmente, tudo deu certo! La do alto da velha montanha, eu contemplava tudo pelo qual sempre sonhei: a minha frente, a cidade sagrada dos incas; ao meu lado direito, bem longe, o acampamento do terceiro dia da trilha que tanto custou a mim; ao meu lado esquerdo, Águas Calientes, a cidade base para visitar esse santuario tao especial; e, atras de mim, a cordilheira nevada. Todo esse cenario so para mim.

Fui até a beira da montanha, abaixo de onde e permitido ficar, e encontrei uma pedra, quase no formato de um banco. La me sentei, com todo cuidado, e, mais uma vez, chorei. Dessa vez, nem sei dizer o motivo. Entrei em epifania. Tudo passava pela minha cabeca, tudo era colocado em perspectiva, as quais nao vou dividir nesse blog. Eu as escrevi em meu diario e um dia espero entender tudo aquilo. Vinte paginas e nao sei dizer quantas horas depois, me levantei do meu banquinho e fui comecar a descida.

Notei que não havia nuvens nesse momento. O céu era todo azul e limpo. Nao era mais sonho, era realidade. Deixar esse lugar foi muito dificil para mim. Senti como se tivesse deixado uma parte minha nesse santuario. Com certeza, jamais esquecerei meus momentos aqui.

Santuario Historico de Machu Picchu

A primeira licao que guardei sobre Machu Picchu, assim que cruzamos a Porta do Sol, e que esse local tao especial e um santuario, um local sagrado. Edgar, nosso guia, fez questao de ressaltar que esse espaco era especial para os incas e que deveriamos conter nossa alegria e nao gritar, pular, ou coisas do tipo. No caminho entre a Porta do Sol e a famosa pedra onde tiramos a foto tao sonhada, ha um espaco de purificacao e um templo para Pacha Mama, mae terra. Deixei 3 folhinhas de coca para ela e agradeci pela minha jornada.

Aos mochileiros que chegam pela trilha, e necessario descer ate a porta por onde chegam todos os turistas vindo de Águas Calientes, para deixar as mochilas, pois nao e permitido carregar grandes bagagens. Depois de nos livramos do peso, Edgar apresentou, num tour de aproximadamente duas horas, a cidade sagrada dos incas.

Ele nos mostrou os principais pontos: o templo do condor, o templo do sol, a praca principal entre outros. Entao, nos deixou livres para caminhar. Estavamos eu, Dai, Alisson e Cassiana. Conhecemos outros pontos da cidade, mas o cansaco pedia que fossemos embora.

Como eu ja havia planejado passar a noite em Aguas Calientes para voltar a Machu Picchu no dia seguinte, nao achei ruim ir embora por volta das 14 horas. Descemos de onibus a Aguas Calientes, onde almocamos com nosso guia e nos despedimos dele.

Águas Calientes
A cidade so serve mesmo como apoio aos turistas que desejam chegar a Machu Picchu da maneira mais facil: trem e onibus. A praca principal e ate que bacaninha, ha inumeros restaurantes e uma briga por clientes. Eles quase te puxam para dentro. Aos mais corajosos, e possivel visitar as aguas termais para relaxar um pouco. Aos que preferem relaxar de outra maneira, nao faltam bares nas pequenas ruelas.

As entradas para Machu Picchu podem ser compradas perto da praca principal, ao lado da igreja. Estudante com carteirinha ISIC paga 70 soles. Como eu pretendia ir a Machu Picchu no dia seguinte, tratei de comprar minha entrada com antecedencia, assim como os bilhetes do onibus, que custam 7 dolares, ida e volta.

Edgar havia me avisado que se eu quisesse subir Winapicchu, que fica dentro do Santuario de Machu Picchu, eu deveria madrugar na fila do onibus, pois so sao permitidas 400 pessoas por dia. Foi o que fiz: acordei as 4 da manha e la fui para a fila do busao na rua gelada de Aguas Calientes. Claro que ja havia uma fila enoooorme na minha frente.

As 5h30 sai o primeiro onibus. Eu so consegui pegar o sexto e, a essa hora ja havia perdido as esperancas de conseguir um ticket para Winapicchu. Quando finalmente, passei no controle do Santuario, o rapaz me confirmou que nao havia mais ingressos para escalar a "montanha nova". Super desapontada, sentei do ladinho enquanto os turistas passavam desesperados por mim. Foi quando um anjo, com uniforme do Instituto Nacional de Cultura (INC) tocou meu ombro e me disse: "¿Chica, quieres Machu Picchu solo para usted?". Eu respondi que sim e ele me indicou que escalasse a montanha velha, Machu Picchu. Disse-me que poucos turistas iam nessa direcao, mas que era a visao mais bonita da cidade.

Quando ele me apontou onde era, me dei conta que era a montanha que haviamos avistado durante o terceiro dia inteiro da trilha. Muito alta. No topo dela, a bandeira de Cusco. Sem pensar duas vezes, com os jolehos ainda arrebentados e, dessa vez, sem bastao de caminhada, la fui eu, sozinha, escalar minha montanha.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Vai Brasil!!!

Machu Picchu - Trilha Inca 4º dia


O despertar foi as 3 da manhã. E não pense que achei ruim. Mal via a hora de levantar, calçar minhas botas surradas e partir para a Cidade Perdida dos Incas. Ao abrir a barraca, mal podia acreditar no céu que nos brindava. A impressào era que, para cada pedra que haviamos pisado, havia uma estrela no céu.

Marcio, Casiana, Paulo, Alisson, eu e Dai
Depois do nosso último desayuno, com panquecas com doce de leite (detalhe: com um trevo da sorte desenhado), nos aprontamos e, ainda no escuro, saimos do acampamento rumo ao último controle da trilha inca. Tivemos que esperar por quase uma hora, pois o controle só abria as 5 horas. Uma fila de mochileiros se formava. Pensas tu que estavámos cansados ou abatidos? Isso nao se via em nenhum rosto. Uma euforia tomava conta de nos e todos dividiam o mesmo sentimento. Em alguns minutos, em meio a escuridão, brazucas se juntaram e trocamos nossas impressões dos últimos três dias.

A Dai viu uma estrela cadente. Eu não. Mas tudo bem, acho que nao tenho direito de pedir mais nada. Se é possível alguem sentir tanta felicidade como a que estou sentindo agora, que me diga como é. Nesse momento, estou transbordando de emoção e sinto-me extremamente abençoada por ter meu sonho realizado.

Quando o controle abriu, apresentamos nossos passaportes e saimos, rumo as duas horas finais de caminhada. Meus joelhos doiam sim, mas eu apressei o passo ao máximo. Uma euforia tomava conta de todos. No escuro, so se ouviam passos fortes e respirações ofegantes.

A cada passo, a cada raio de luz que ia iluminando a trilha, meu coração se acelerava e as lágrimas, mais uma vez, se aproximavam.

Já cansados, nos minutos finais, um ultimo desafio: subir cerca de 50 degraus de uma escada que parecia parede de escalada. De mochila nas costas, fui escalando degrau por degrau com as mãos. Era uma loucura, mochileiros loucos passavam particamente por cima de mim. O motivo? Ao final da subida lá estava Intipunku, a Porta do Sol. De lá, bem embaixo, eu vi, pela primeira vez, Machu Picchu.

Finalmente, troquei a imagem do livro de História por esse momento. As lágrimas são previsíveis e inevitáveis para mim. Não conseguia me mover: lá estava a cidade que tanto sonhei, a montanha que tanto sofri por alcançar, a foto que tanto vi. Tudo lá, na minha frente. Tudo meu.

Depois de contemplar tudo aquilo, descemos e tiramos a foto cartao postal que sera poster no meu quarto logo mais.

Agora ou nunca - Trilha Inca 3º dia

Eu ñ curto muito Bon Jovi, mas Its my life foi a trilha sonora que marcou nossa chegada a Wiñaywayna, o acampamento do 3º dia da trilha:

"It's my life
It's now or never
I ain't gonna live forever
I just want to live while I'm alive
My heart is like an open highway
Like Frankie said
I did it my way
I just wanna live while I'm alive
It's my life"

A sensacao de chegar num acampamento que tinha musica, ou seja, energia eletrica ja era boa o suficiente. Nesse dia, sabiamos que, finalmente, poderiamos tomar banho quente, a 5 soles. Tudo era alegria quando soltamos os bastoes e nos jogamos na mesa do almoco no acampamento, por volta das 15h.

O terceiro dia de caminhada foi lindo, perfeito, memoravel. Nada de grandes subidas, nada de chuva, nada de frio. Pacha Mama nos brindou com sua beleza e contemplar a natureza ao nosso redor revigorava cada passo.

Em poucas horas ja havia esquecido os tenis, as meias, a calca e jaqueta molhada que eu vestia. Dor, eu senti sim, pois havia muita descida e meus joelhos estavam arrebentados. Edgar, percebendo que eu sofria para descer, gentilmente, cedeu seu tensor para mim. A Dai caminhou super bem e quem chegou por ultimo ao acampamento fui eu e meus joelhos podres.

Depois do almoco tomei banho quente e, quando achei que ia aproveitar a super infraestrutura do nosso ultimo acampamento, o corpo pediu descanso. Minha cabeca comecou a doer, meus joelhos nao se dobravam e eu nao conseguia sair da barraca. Na hora da janta, Edgar veio me buscar e, com muita dor, e lagrimas, desse vez nao de emocao, caminhei ate a area do restaurante. Eu fui pois sabia que esse dia era especial: fariamos uma cerimonia com os porteadores que estiveram conosco durante todo o caminho. Depois da janta, e de tomar um cha de limao e um super anti-inflamatorio, fomos para o lado de fora. Embaixo de um ceu pintado por estrelas, Edgar prestou uma homenagem aos nossos bravos porteadores e nos deixou dizer algumas palavras a eles.

Eu os agradeci por todo trabalho servido e disse que jamais os esqueceria pois eles haviam me ajudado a alcancar um sonho. Elberto, Hilario, Santos e Bruno mantiveram-se, como sempre, calados e cabisbaixos, acanhados, enquanto os agradeciamos. Demos um dinheirinho e uma bandeirinha do Brasil para cada um e nos despedimos desses 4 super herois.

Do nosso acampamento era possivel avistar a bandeira de Cusco no topo da velha montanha, Machu Picchu. Atras dela, a cidade sagrada nos aguardava a apenas algumas horas. A noite foi linda e nao poderia ter sido mais perfeita.

Nesse momento, os sentimentos ja se misturavam: vontade de chegar logo e tristeza de terminar a jornada. Era meu sonho cada vez mais proximo, cada vez mais meu.

Chuva, frio e muita subida! – Trilha Inca 2º dia

Amanheceu chovendo, do tipo que não deveria acontecer no inverno. Tomamos nosso desayuno debaixo de uma espécie de quiosque. Dava para notar que estávamos dentro da propriedade de alguns moradores tradicionais. Edgar nos disse que existem alguma famílias que moram nesse trajeto do Camino Inca e que eles cedem seus espacos para os acampamentos em troca de uma certa ajuda do governo. Bom saber que pelo menos nao somos tão invasores assim.

Depois de tomar aveia quente, pan con huevos e mantequilla, vestimos nossas capas, pegamos nosso bastão e bora caminhar. Nesse dia, decidimos contratar porteadores para carregarem nossas mochilas. Custou-nos 80 soles. Apesar do preço não ser barato, senti-me muito mal por vê-los carregando aquele peso todo que eu, mochileira de primeira viagem, havia colocado nas costas. E uma sensação estranha: você os ajuda contratando seus serviços, mas quando os ve passar correndo, na chuva, com aquele peso todo (chegam a carregar 30 kg), a sensação é péssima. Não sei explicar.

Achava que pela manhã estava frio. As duas primeiras horas de caminhada foram muito sofridas. O segundo dia da trilha inca é quando se sobe mais, chegando a 4200 mts. Já sabia que seria o dia mais puxado e aquela chuva da manha me assustou bastante. Tinha esperanca que ia melhorar o tempo, quando a chuva ficou mais espessa e a temperatura caiu. Depois da primeira parada, segui caminho sozinha. Edgar, nosso guia nos deixou livre para caminharamos conforme nosso tempo. Segundo ele, e melhor nao parar muito.

Eu, Cassiana, Gilbert (guia) e Marcio. Ao fundo está o Paulo
A Dai ficou para trás. As subidas foram muito difíceis para ela. Edgar a acompanhou o trajeto todo. Para mim, tambem não foi fácil. Os pulmões pareciam que iam explodir. No desespero da subida, com a falta de ar, o instinto nos faz abrir a boca e puxar. Mas, a essa altitude, de 3 a 4 mil metro, ele e meio escasso e isso nao se deve fazer.

Não podiamos ver qual seria o fim da subida. Tampouco aproveitamos a vista das montanhas. Uma nevoa cobria tudo e a chuva não nos deixava levantar muito o rosto. Não conseguia sacar a câmera de tanta chuva.

O combinado desse dia era caminhar ate as 14h e entao almocarmos ja no nosso acampamento. No meio do caminho fizemos uma breve parada para comprar água e usar o banheiro. Era impossivel ficar parado. O frio doia nos ossos e com cinco minutos ja nao era possivel sentir os dedos. Nessa parada, Cassiana e eu seguimos a trilha com o Marcio, outro brasileiro. O amigo dele, Paulo, estava um pouco atras, passando mal.

Quando, finalmente, alcancamos o topo mais alto, fomos expulsos da montanha. Um vento fortissimo, com chuva e granizo nos cortava a pele. As capas nao adiantavam de nada e nao houve parte do corpo que estivesse seca. Depois de tanto subir e sequer conseguir apreciar a vista, tivemos que descer rapidamente. A Cassiana estava a dois passos de mim e eu nao a conseguia ver. Esse foi o pior momento de toda trilha. Meus joelhos ja davam sinais de dor e o frio e as roupas molhadas so completavam o cenario.

Para azar nosso, e mais ainda dos porteadores, as barracas estavam molhadas tambem. A tarde e a noite desse dia forma um caos. Tudo estava molhado e o frio era de cortar. Nao preguei o olho um segundo. Pior que estar nessa situacao era pensar que a chuva nao dava sinais de tregua. Segundo os guias, se nao parasse ate o dia seguinte, as chances de ver Machu Picchu no 4º dia eram pouquissimas.

Mochila nas costas e coração na mão – Trilha Inca 1º dia

Edgar, nosso guia, atrasou-se longos 17 minutos, durante os quais eu não parava de andar de um lado a outro da pequena e aconchegante recepcao do hostel em Cusco. Quando já havia pedido que ligassem para a agência, finalmente ouvi o barulho de um carro. Era o Edgar, que, desde aquele momento, ja percebi que seria um grande amigo!

Fomos de taxi ate um ponto de Cusco onde alguns ônibus nos esperavam. Do lado de fora, vários homens, muito simples, e aparentemente pouco agasalhados, estavam aguardando também. Percebendo meu interesse, Edgar logo explicou que eles eram os porteadores, os responsáveis por subir com todo o equipamento para nosso acampamento. Nessa hora também conhecemos Alberto, nosso cozinheiro. Simpático, mas muito tímido, com face para baixo, ele me cumprimentou acanhado. Algumas horas depois ia descobrir em Alberto o melhor cozinheiro do mundo!

Uma vez dentro do ônibus, partimos rumo a Ollantaytambo, que e uma cidade que faz parte do Valle Sagrado, de onde parte o Camino Inca. (Depois farei um post somente sobre essa cidade, que visitamos também e que tem um belissimo sitio arqueológico).

Quando descemos do ônibus, conhecemos Cassiana e Alisson, nossos compas brasileños, que seriam nossos companheiros de viagem. De mochila nas costas e coração na mao, partimos para nossa primeira foto na conhecida placa de inicio do Camino Inca!

Alisson, Cassiana, Dai e eu no início da trilha inca!


Entao, encaramos uma fila de mochileiros no controle para a entrada da trilha. O frio da barriga vencia o frio na beira do Urubamba. O peso da mochila era menor que o peso da responsabilidae de não decepcionar a mim mesma. Minha concentração comecou ali, olhando a subida do outro lado da ponte.

Com meu segundo carimbo no passaporte (sim, mochileiros, na trilha inca há um carimbo!), dei meus primeiros passos por cima do Urubamba, rumo a Machu Picchu. Foi dificil desde o princípio. A vontade e de para a cada 1 minuto e não por causa do peso ou da falta de ar, mas para apreciar o momento. Para curtir essa parte tao especial da minha vida.

Edgar nos alertou do principio: "caminem despacio, pero mantenham o ritmo". El sol nos abençoou no primeiro dia de caminhada e nos deu um céu lindo para ornar com a terra cheia de vida. El condor e el puma completaram com harmonia nosso dia.

Avistamos dois sitios arqueológicos, Cañabamba e , e nem preciso comentar sobre as minha lágrimas. Na primeira subida que fizemos, a qual nem imaginavamos que seria a mais leve, a sensação no topo ja era mágica. Quando avistamos a primeira montanha coberta de neve, a Dai me disse: "eu sinto que estou nas nuvens", ao que respondi "sinto isso desde que pisei aqui". O Peru tem um efeito em mim que nao imaginava poder sentir.

Esse primeiro dia foi cansativo, com mochila nas costas o tempo todo e foi todo descoberta. Nunca imaginei comer tão bem nessa trilha. Quando finalmente alcancamos a parada para o almoco, ficamos boquiabertos com a organizacao: barraca montada, mesa posta, com o capricho de uma toalha tipicamente peruana. Fomos recepcionados com suco, depois sopa, então o prato principal, arroz com carne e cebola,  mais sobremesa. E, por fim, um té de coca para digestão. Perfeito, memoravel. Quatro homens muito quietos nos serviam humildemente. Nesse momento ainda era cedo para conhece-los, mas eu já tentava uma aproximação.

Dez minutos apos o alomoço, partimos rumo a segunda parte do dia. Muito mais cansativa, mas tão bonita quanto a primeira. No fim da tarde, quando el sol ja cedia lugar a el luna, a chuva decidiou nos tocar a pele cansada e fria. Paramos, colocamos nossas capas e seguimos caminho. Uma hora depois, ja na penumbra, chegamos a nosso primeiro acampamento. As barracas já estavam armadas e aquele mesmos homens estavam todos a postos para, mais uma vez, nos servir um belo banquete e nos proporcionar um belo abrigo para a chuva.

A noite foi fria e dormir no chão, dentro de um saco não foi facil. Mas foi simplesmente um alivio!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Partindo para o Camino Inca

Agora são 6 horas da manhã aquí em Cusco. Hoje comecamos nossa caminhada rumo a Machu Picchu. A empresa que contratamos para fazer esse camino virá nos buscar as 6h30. Durante quatro dias cruzaremos os Andes até a cidade sagrada dos incas.


É impossível dizer como estou me sentindo agora. Também e impossível fazer um bom texto que tente aproximar essa sensação. Minha intenção agora é só deixar avisado que o blog ficara inativo pelos próximos 4 dias pelo menos e pedir que todos que estejam lendo isso emanem energias positivas para nossa caminhada.

Preparo físico eu não tenho. A mochila não está leve e não é por luxo. Simplesmente faz muito frio aqui e precisamos levar todo tipo de abrigo. Ontem conhecemos nosso guía, o Edgar, que nos apresentou todo o trajeto, que infelizmente, nao vou conseguir colocar aqui agora.

¡Hasta luego, chicos!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O rabisco de um sonho


Era no tempo do meu ginásio. A sensação era de não ser mais criança agora que estava na 5ª série! Para cada matéria tinha um professor e um livro diferente. O peso não incomodava em nada, pelo contrário, ficava feliz em carregar aquele material todo. Em especial, o livro de História. Tinha aula às terças e quintas e, durante aquele ano, a professora nunca conseguiu me surpreender, pois a ansiedade me fazia devorar os capítulos antes.

Foi num desses momentos que eu vi a famosa foto da cidade de pedra. Meus olhos foram direto na legenda e eu me lembro de que ela dizia algo como a cidade de pedra nas nuvens. Quando terminei de ler o capítulo sobre as “civilizações pré-colombianas” ficou uma confusão na minha cabeça com os três povos: incas, os maias e os astecas. Qual desses três povos havia construído aquela cidade? Em que lugar ela ficava? Quem a tinha descoberto? Eu poderia ir até lá?

Machu Picchu, então, tornou-se um sonho para mim. Aos onze anos, comecei a planejar como seria chegar lá. Eu não tinha computador em casa, então recorri à enciclopédia Larrouse (rs) e aos mapas do anexo do livro de geografia. Fiz vários pontinhos de como eu chegaria lá. Engraçado que, nessa época, eu não pensava em pegar um avião. Meu caminho era pelo pantanal, pois meu pai sempre viajava para lá em julho eu achava que numa das suas viagens ele poderia me deixar “na metade do caminho”.

Meus pontilhados me acompanharam por dez anos. No terceiro ano de faculdade, encontrei uma companheira disposta a fazer essa viagem comigo. A Sarinha, como sempre mais organizada que eu, tinha um roteiro em mãos e me apresentou a ideia. Detalhe: no caminho dela, passaríamos bem perto do pantanal! Antes das aulas e nos intervalos nós tentamos planejar essa aventura. Mas, a vida de estagiárias não nos permitiu combinar datas e o sonho ficou adiado.

Agora, formada, empregada, já cursando uma pós e um pouco dona dos meus próprios passos, decidi mergulhar de cabeça e finalmente conquistar meus pontinhos. Decidi ir sozinha e comprei minhas passagens. Alguns dias depois, a Daí, minha amiga que eu conheci na 5ª série decidiu ir comigo. Embarcamos nesse domingo, dia 11, rumo à Lima. Mas, com a ansiedade como minha característica, meu planejamento já dura seis meses e um dos intuitos desse blog é dividir esse processo nos próximos posts.

Outro objetivo é, na verdade, bem egoísta: quero registrar como a garotinha da 5ª série cresceu e agora vai buscar seu sonho nas nuvens.